Saturday, December 3, 2016

Lista para o Pedro rever daqui por...dez anos?


Resultado de imagem para likes and dislikes, clipartEncontrei esta actividade no caderno de Português do Pedro. Quero guardar - para que veja se se revê em si próprio daqui por uns tempos. Se calhar, algumas serão já diferentes no espaço de dois ou três anos, outras, espero que lhe sejam verdadeiras pela vida fora.


Bragança, 4 de Novembro de 2016

Chamo-me Pedro, tenho nove anos e moro em Bragança. Tenho cabelo castanho, sou moreno, sou bonito e sou moderado.

Doze coisas de que eu gosto:
  1. Gosto de jogar à bola
  2. Gosto dos meus amigos
  3. Gosto de pastores alemães treinados
  4. Gosto de escrever poemas
  5. Gosto de desenhar
  6. Gosto da minha família
  7. Gosto de andar de bicicleta
  8. Gosto de snooker
  9. Gosto de falar Inglês
  10. Gosto de nadar
  11. Gosto de doces
  12. Gosto de ouvir música
Doze coisas de que eu não gosto:
  1. Não gosto de alguns legumes
  2. Não gosto de carrapatos
  3. Não gosto de ovos estrelados
  4. Não gosto de pessoas más
  5. Não gosto de coisas malucas
  6. Não gosto de ratos
  7. Não gosto de incêndios
  8. Não gosto de países onde não há liberdade
  9. Não gosto de poluição
  10. Não gosto de saudade
  11. Não gosto de maldade
  12. Não gosto de muito barulho



Um pê e um ó, pó!

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     Ainda apanhámos um susto, há umas semanas atrás, quando percebemos que a Mary trocava os pês pelos tês e que, para não pensar muito nos ditongos se deitava a adivinhar a palavra pela imagem ou pelo contexto, de forma que previa mãe onde deveria decifrar mamã... 
      Aquilo andava a pôr-me doida! Um pê e um A, pá; um tê e um ó, tó - e então a rapariga lia PÁ-TÓ. Sápó, rátó, pálitó e por aí adiante. (Ensinei-lhe os diferentes valores das vogais. Disse-lhe que, no final das palavras o O normalmente se lê U e lá foi encaixando aquilo.). Depois era - TAPT, para tapete. Ora, se lhe ensinam que P se lê pê, para quê acrescentar vogais?
     A primeira vez que fez um ditado- uma lista com oito palavras - acertou duas e, no dia seguinte teve avaliação amarela na leitura. Foi o alerta para nós. Nunca mais a largámos. Diariamente um pouquinho, mas mais ao fim de semana, exercícios extra de sílabas, palavras e pequenas frases, em fichas, cadernos e até em jogos de computador. Foi progredindo. No ditado seguinte teve as oito palavras correctas e um PARABÉNS a vermelho, que nos encheu o coração e lhe redobrou a confiança. 
         No outro dia, pega num livro do Valter Hugo Mãe que ando a ler (Desumanização), aprecia-lhe a capa, as ilustrações dos monstros, vira-o, revira-o, folheia-o e conclui: "A mãe já leu isto tudo?". Achei-lhe piada. A noção do esforço gigantesco que será, do ponto de vista dela, juntar aquelas sílabas todas!!!!
       Apesar das dificuldades iniciais, sempre considerei muito positiva a atitude dela em relação à aprendizagem. Especialmente no que toca ao sentido de humor e espírito crítico.  Lá tinha ela de ler e copiar frases, com as reduzidas consoantes que haviam aprendido e ela a considerá-las (e bem) artificiais e forçadas:

O LEÃO PÕE A PATA. (ponto final)
E ela, depois de muito silabar: "Mas põe a pata aonde, faz algum sentido?"

O PAPÁ PAPA A PAPA. 
A sério? Quem come a papa são os bebés!  
Sim, Maria, mas tu ainda não aprendeste o bê, anda, copia.
(Faz-me lembrar a minha irmã nas aulas de condução e o instrutor, conduza, menina, não questione, não questione!)

A DÁLIA DÁ O DEDAL AO DIDI. O que é dedal, mãe?

O PAI É O PAPÁ...
Não! Ia ser mamã...
 
      Enfim, pareceu-me que a curiosidade e o espírito crítico da Maria podem vir a ser uma mais valia na aquisição de conhecimentos. Para já, porque tem de ser, coartamo-los para que avance, mas com um sorriso nos lábios. Como se diz por estas terras "é guitcha" (esperta).
       Hoje, com uns materiais manipuláveis em cartão, a surpresa. Junta tudo, mesmo letras que ainda não deu. Leu tudo: Xavier, Beatriz, árvore, etc, etc. Encarreirou. Agora faz-nos desenhos com mensagens:
 A mãe é má. 
O pai é mau.
O quê, safada?É para isto que andas a aprender a escrever? 
Ah, é que ainda não dei o bê de bom!



Friday, December 2, 2016

A Chegada do Pai Natal






     Agora que já só um dos corações grandes e mãos pequeninas acredita no Pai Natal, temos cúmplice na manutenção da fantasia para a mais nova. 
     Já no ano passado, dúvidas e mais pulgas atrás da orelha ("porque é que os presentes do Pai Natal vêm com o mesmo papel de embrulho que os nossos?" e também "o não-sei-quantos diz que isso não existe"). Revelámos. O Pedro, como sempre, fez disso uma tragédia grega em três actos, cujo refrão consistia num indignado -"vocês, mentiram-ME? Como foram capazes de me mentir?" (com verdadeira voz melosa do monólogo "ser ou não ser, eis a questão). Catarsis feita, a cena serenou com a promessa que, então, iria connosco às compras de natal e com o pacto de que manteríamos o segredo para a mana e para o primo Tomé por mais uns tempos.
     Neste espírito, lá fomos receber o velhinho das barbas brancas que chegava ontem à cidade. O Pedro e o Gonçalo mais animados pela pista de gelo do que propriamente pelo trenó e pelas renas, a Maria de olhinhos a brilhar, olhos postos nos anjos e sinos em andas, nos duendes, nos esquilos e nas Ice Girls. Com gorrinhos alusivos, de grandes orelhas de duende, a minha criançada lá acompanhou o cortejo até à Praça da Sé. Aí, apreciaram o presépio em tamanho real e aqueceram as mãos no fogareiro.
     Na Praça Camões também se ficaram uns minutos a contemplar o presépio mais extenso, colado à Biblioteca Municipal, mas houve logo uma vozinha dissonante e masculina (o meu Pedro): "O que é que o Big Ben está ali a fazer? Nada disto se passou em Londres e, naquela altura nem havia relógios!"
     Grande recepção ao velhinho, acende-se o pinheirinho cheio de luzinhas - as minhas crianças quase absolutamente satisfeitas, não fosse a ansiedade dos mais velhos irem patinar!!!! Eu tinha jurado que não, que não enfrentaria a fúria do primeiro dia de pista de gelo, por razões mil: filas de espera (40 minutos ao frio), muita gente na pista, logo, mais perigo para a pequena, etc, etc. Então lá fui eu, cumprir o meu fado para a dita. Patins nos pés, capacete na cabeça.  
     "Arranja-me uma foquinha para a pequena, por favor?"
     E o rapaz, com alguma piada "Vou tentar, minha senhora, mas sabe? Elas não se reproduzem cá dentro!"
      Ao fim e ao cabo, quem mais teria usufruído do apoio teria sido o mais velho, que, corria e caía como um desalmado. No final, queixava-se que estava sempre a cair. Pudera, filho, não andas devagar, só tentas correr!, ao que responde "É para aproveitar o tempo. São só 20 minutos, tenho de andar depressa para andar muito..." (- para andar muito pelo chão, diria eu)
      Ainda acabei por prestar auxílio a um estudante Erasmus que sangrava abundantemente de uma mão, havia-se cortado no patim de um colega, quando o grupo todo caiu - nestas coisas os graúdos parecem ficar ainda mais histéricos que os miúdos e, não raramente, acaba mal. Fui chamar o bombeiro, que por sua vez tinha sido meu aluno e não falava nada de inglês. Momento em que vacilo em pensar:
a)  que útil estou a ser neste momento,  a servir de intérprete nesta emergência 
b) que inútil fui como professora de inglês deste, que não se safa nada!
      E, pronto. Criançada estafada, encharcada e esganifada da fome. Hora de recolher, banho quente e janta, que nem parece que amanhã é dia de escola!







Monday, November 21, 2016

Dentista


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Hoje o Pedro foi à dentista. Queixava-se de um dente "rachado" havia já uns dias.
Ele entra bem disposto, descontraído, conversa com a doutora e a auxiliar, abre a boca quando solicitado.
A Dra analisa e dispõe-se a explicar-lhe de que se tratava e qual o procedimento a seguir.
Ele muito despachado: "Não quero saber de nada disso, esteja à vontade, faça lá o que tiver de fazer e pronto!" (eu meia na dúvida entre achar piada  à descontração ou censurar a pontinha de desrespeito que me pareceu interrompê-la assim abruptamente, mas vá lá, são crianças e tal, a gente tolera...)
Ainda assim a Dra foi explicando que era uma cárie e que tinha efectivamente uma rachadelazita, que teria de limpar e afundar... (suponho que a seguir diria para depois tapar, se tivesse tido tempo).
O Pedro volta a interrompê-la e sai-se com:
"Então você em vez de tapar o buraco vai abri-lo mais?"
Riram-se, que em anos de carreira nunca tinham  tido uma saída assim.
Desta vez também perdoei a audácia pelo sentido de humor. 

Tuesday, November 15, 2016

Dar a outra face


Resultado de imagem para turning the other cheek, clipart      Ó Jesus Cristo, se calhar,  hoje em dia, não era mal pensado tu reveres aquela parte de dar a outra face e tal... é que as coisas estão difíceis, nos recreios infantis e começa a urgir um qualquer tipo de inovação, mais não fosse tecnológica, sei lá... Um holograma tipo bolha virtual que protegesse os garotos dos arremessos violentos dos pares. Não sei, mas estou aberta a negociações ou mensagens espirituais por vias de pombas santas ou emails. Dá-me igual.           Não leves a mal, eu sei que foi isso que me ensinaste e que tentei passar à prole, mas, quer dizer... será melhor já não insistir no oferecer literalmente a segunda bochecha ao estalo, é que os meus filhos têm vindo um pouco mazelados da caridade e perdão intervalar...
      No outro dia, o Pedro vinha perturbado e não queria ir ao treino de futebol (que ele adora e de que nunca abdica). Indaguei razões e o pacto de silêncio que encobre estas circunstâncias impôs-se. Casualmente uma professora dele vinha a passar e explicou-me detalhes. Tecidos muitos elogios à boa educação e cordialidade do Pedro, um comportamento exemplar dentro e fora da sala de aula, enfim, arrufos entre meninos que até se dizem amigos, uma má companhia para o Pedro, no seu entender, desavenças que acabam em bulhas nas quais o meu filho não riposta.  Esta parte deixou-me confusa. Que não procurasse o confronto, que tentasse lidar civilizadamente, eu entendia.  Agora, que depois da agressão não se defendesse sequer, tendo em conta a estatura muito inferior do outro menino... não estava a perceber. Perguntei-lhe, a sós. Confessou-me: "Não quero ser chamado à direcção, nem ser expulso da escola, nem que me ponhas de castigo por bater nos outros." 
       Naquele momento, sentimentos confusos. Orgulho na opção dele. De não violência. A percepção - tão rara- de que estamos a educá-lo bem, para a civilidade e o respeito pelo outro e também o respeito pelas instituições e todo o sistema com as suas regras. A surpresa de perceber o quanto respeita a autoridade exterior a si. Mas também sentimentos azedos como: surpresa por vê-lo no papel de vítima (embora não o quiséssemos como agressor); pena por lhe ter passado tão bem a mensagem que ficou indefeso; comoção pela lealdade e não denúncia do amigo; raiva por um recreio que não controla estas situações; culpa por não lhe ter ensinado também a  defender-se... deu-me que pensar!
      A Mary, por sua vez, entrou na escolinha dos grandes, uma escolinha pública onde brinca no recreio com meninas e meninos de todas as formas e feitios. Tem vindo com arranhões e hematomas vários, que inicialmente atribuímos às brincadeiras audaciosas da nossa despenteada, que sempre foi destemida e aventureira. Pouco a pouco, relatos de agressões. Começámos com o discurso caseiro do "tu também não és flor que se cheire" e por aí vai, mas temos vindo a reparar que o problema é mais vasto que isso. Sondámos o mano mais velho, quase em vão, porque logo percebemos que os seus recreios estão mais focados em remates e defesas do que em ser cavaleiro-andante-escudeiro da piquena. Nas palavras dela "ele nos intervalos está sempre  a jogar futebol!"
      Hoje, na mochila dela, um grande pau. "Isto é o que eu uso para me defender!" Fiquei sem pinta de sangue, veio-me logo à ideia a minha mana mais nova que foi agredida exactamente na escola primária e com um pau, chegando a ser  e suturada! Comecei a remoer na ideia que os intervalos são o Texas, não há funcionários que cheguem para tantas crianças com as hiperactividades e faltas de educação que elas trazem anexas e, portanto,... valha-nos Deus!
      Peço-lhe que não recorra ao pau, nem a pedras, nem a nada, nem mesmo para se defender; sugiro-lhe alternativas como aproximar-se de um adulto, fazer queixa a um funcionário ou à professora. Parece que também há adultos que os mandam "defender-se em vez de fazer queixinhas".
      Ora bem, valha-nos Deus e desculpa lá ó Cristo, mas manda-me rápido uma pomba iluminada que me inspire ou não tarda e já os instruo de maneira diferente: sabem, filhos, afinal, dar a outra face só mesmo se for para beijar!

    

Sunday, October 23, 2016

Ser RICO

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"Ó pai, porque é que quiseste ser professor em vez de médico?"
"Porquê filha?"
"Porque assim só te dão dinheiro uma vez na semana... e se fosses médico davam-te todos os dias"
"Como assim?"
" Não vês que o hospital está cheio de pessoas todos os dias, que partem ossos e estão sempre a pagar...ou tinhas um café, que as pessoas tomam café todos os dias e dão dinheiro...ou então ias à televisão e ganhavas milhares de euros..."
(...)
"Então podes tu ser médica, filha!"
"Eu não, que quero ser pintora"
"Mas os pintores nem sempre vendem muitos quadros e só recebem dinheiro se os quadros forem valiosos..."
Rich Man Lighting His Cigar with a Dollar Bill - Royalty Free Clipart Picture
"Mas eu quero ser pintora famosa, quero ter o meu museu!"

"Pai, porque não compras um Bugatti?"
"Porque esses carros são muito caros, são carros de luxo, para milionários, quase ninguém pode ter um..."

Parece que, apesar de cá em casa ninguém ser muito ganancioso, nem agarrado, nem propriamente materialista, a mensagem do consumismo chega aos nossos filhos, levando por água abaixo os nossos esforços para que sejam se tornem adultos realizados, no sentido de satisfeitos e contentados com o que têm.
Mais, quereríamos que fossem  gratos pelos bens que possuem, que dessem valor, que sentissem ainda que podem partilhar e que reconhecessem que, em muitos sentidos, são muito ricos. (pedir de mais? demasiado  cedo? Talvez...)
Ricos, filhos. E não apenas no sentido metafórico, por terem saúde e vitalidade. Gostaríamos, corações grandes, que percebessem que é um dom, um privilégio viver como vivemos... que a grande maioria das pessoas do mundo não tem o nosso estilo de vida. Que é um privilégio viver - em PAZ, em DEMOCRACIA, em LIBERDADE. Que é um privilégio ter um tecto, alimentos, roupas e a montanha de outros objectos que possuímos e serviços de que usufruímos: electricidade, água potável, água canalizada, aquecimento central, vacinação, escolas e bibliotecas públicas, a lista não tem fim.

A minha Maria acha que uma casa "de jeito" tem de "ter jardim e piscina, mas não é uma normal; é daquelas com tampa e com luzes, para podermos tomar banho no inverno e de noite"
O Pedro, talvez por ser mais velhinho, vai integrando o nosso apelo à moderação, ao bom-senso, à modéstia e à gratidão. Fixa a imagem televisiva de uma cidade em escombros, algures na Síria e diz "Já viste o que é viver assim? Vão ter de fugir das suas casas, não é? E era uma cidade normal, não era? Coitadas daquelas pessoas! Ainda bem que não temos de viver ali!"
Empatia. Sensibilidade.Gratidão. Bravo, filho! Estás no bom caminho para te tornares num ser humano como deve ser. Rico por dentro.

Sunday, October 9, 2016

Dedução (a meu ver) brilhante

" ó mãe, tu dás aulas em várias escolas, não é?"

"sim, filha, vou a várias escolinhas, a diferentes turmas...!"
(eu a pensar que talvez  lhe custe encaixar isso, uma vez que a professora dela nunca sai da mesma sala, no mesmo sítio e com os mesmos alunos...)

"mas são só meninos do terceiro e do quarto, não é?"
"sim, agora só trabalho no primeiro ciclo"
(eu a reforçar a ideia, pensando que o foco dela era a faixa etária com quem trabalho...)

"então significa que estás sempre a repetir a mesma coisa...."
(e, pronto, na mouche, a Maria acerta em cheio no se não da bela...é verdade que oito ou nove turmas do mesmo nível equivalem a muita repetição. Perspicaz, não acham?)