Wednesday, July 6, 2016

Mary Fit!

Hoje de manhã a Maria optou por ficar em casa a tomar o pequeno almoço nas calmas, em vez de ir às férias desportivas, que tanto adora! Não sem antes se assegurar de que a levaria lá de tarde, pois era dia de piscina! O escorrega azul, o grande escorrega azul! Este ano foi a vez dela! 
"Já tenho pé na piscina média, mãe, se andar assim aos saltinhos, com o pescoço esticado para cima!"

Então, fomos as duas ao ginásio! 
Eu ia fazer uma aula de GAP (glúteos, abdominais e pernas) sempre com cargas, por isso avisei-a que ia usar uns pesinhos mais pequeninos (porque adivinhei que quereria usar alguns e se recusaria a fazer sem nada!) e que, sempre que quisesse podia pousar os pesos ou mesmo parar para descansar!

Qual quê! Melhor parceira de treino não podia haver! Fez a aula todinha, sem desistir, nem intervalar (mais do que o indicado pela monitora) e sempre determinada e atenta para executar os exercícios correctamente!
Bem que eu lhe ia sussurrando descansa agora um pouquinho, se quiseres repousa e tal, mas ela NÃO! Tudo, alongamentos e tudo. No final da aula ainda experimentou o trampolim e a passadeira e, se a não arranco de lá, explorava as máquinas todas da sala de musculação!

Grande Maria, fiquei mesmo orgulhosa da minha pequenina. Tem a garra dos pais!

Sunday, July 3, 2016

França!

     Para escapar ao festival à porta de casa, um tal de Water Slide que consiste em escorregar em bóias gigantes por uma rua em espaço urbano, com música de gosto duvidoso em altos berros, decidimos fugir. Não nos agradava a ideia pouco higiénica, estrada acima, estrada abaixo, nem o ambiente carrinhos de choque. Fomos para o campo.
Para as crianças foi um dia em cheio. A aldeia de França é um pequeno paraíso em pleno Parque Natural de Montesinho: as águas limpas e frescas do Rio Sabor e as sombras frescas de árvores milenares (que, naturalmente, não sei nomear) fizeram as delícias de miúdos e graúdos.
     Pelo caminho, explicámos às crianças - no nosso carro vinham o Pedro, a Maria e o Henrique -que, no passado era necessário fugir de Portugal, por não haver liberdade, por causa de um senhor de quem já tinham ouvido falar na escola ("o Salazar", chutam). Então, as pessoas "davam o salto", isto é tentavam passar a fronteira pelo monte, para ir para França. Pediam ajuda a uns senhores que conheciam os percursos e recebiam dinheiro pelo serviço de os guiar até ao destino. No entanto, alguns destes "ajudantes" aldrabavam os "clientes" e, ao chegar à aldeia de França afirmavam ter chegado ao destino. Custou-lhes acreditar que as pessoas pudessem ser ludibriadas dessa forma. Naturalmente, geração pós-google-e-GPS!
     Enquanto se fazia a "assadura da carne" no churrasco do parque de merendas, as crianças tomaram o primeiro banho, ao final da manhã. Primeiro, a estranheza - águas gélidas a que não estão habituados, a frescura de uma água perto da nascente do rio surpreendeu os meninos habituados a piscinas e mares do sul. Depois, a estranheza do solo - ai que pica, ai que escorrega, ai que não é areia, ai que são pedras, ai que tem lodo e girinos e até um sapo! Depressa o "E se tem bichos?"do Pedro se transformou em braçadas satisfeitas, galhofa e mergulhos gulosos.
     Há um menino que se junta ao grupo: acham piada - um amigo que veio de França para França!
     A seguir, churrascada - uma mesa colorida, saladas frescas, sumos que se refrescaram banhados nas próprias águas fluviais, batatas fritas, carninha e alegria! Fruta engolida na voracidade de ir brincar!
      Manta. Jogos e cartadas à sombra, pescar peixinhos com redes! A euforia com que se encheu um balde deles!!! Todos juntos a vibrar com a experiência. Rapidamente a vontade de voltar para dentro de água se apoderou dos catraios, altura em que interviemos para lhes desviar o foco. Era cedo para banhos, havia que esperar a digestão - vamos ver os cavalinhos no Centro Hípico, ali a dois passos.
      Munidos de cenouras e maçãs, lá foram ter com os equestres amigos. Inicialmente, ai e tal que cheiro, tantas moscas, eles mordem? E, pouco a pouco, mão estendida trémula e hesitante, um misto de receio e entusiasmo, toma cavalinho, toma a cenoura, a maçã é mais difícil, porque raio é tão curta que o bicho estende aquele focinho cheio de dentes grandes e a gente larga logo a maçã para o chão, era haver maçãs em forma de cenouras e toda a gente tinha mais coragem! Feno! No final até feno se consegue dar! Para a próxima temos mesmo de montar!
     De volta ao parque de merendas, três litradas de água pedidas pela caminhada ao sol e tchux, água outra vez. Desta vez com mergulhos mais audazes e confiança redobrada nas braçadas! Escava-se com as mãos na margem, até abrir um buraco de terra à unha (deus meu, onde estão os adultos conscientes destas crianças?), baldes de água lá para dentro, abrem-se as hostilidades: há uma piscina de lama para explorar! Saltam, patinham, rebolam, esfregam.se, besuntam-se e têm o seu momento de glória. A Maria, aos pulos "Lama! Lama!Lama!", como quem clama por uma equipa de futebol; o Pedro a pegar em mancheias de terra que esfrega sofregamente pelo corpo e todos, todos, a chafurdar na lama e a correr rio adentro para se limparem, sucessivamente, vezes sem conta - os adultos incrédulos, com a cara de ponto de interrogação - ralho ou não ralho; decidem-se pela alegria, filmam e apreciam vê-los TÃO felizes e soltos!
      A lama esmorece, mais banho em águas doces. "Uma COBRA!!! Apanhámos uma cobra de água!" As emoções não param. Há gritinhos histéricos, risos e saltinhos - a cobra a serpentear na rede tão agitada quanto eles!
      Lanche: pizza caseira, feita pelo pai Reno; melancia e melão frescos, gelados - crianças felizes! Bola, para o dia ser perfeito: primeiro, matrecos; depois, futebol no campo ali ao lado. Este sítio é o céu dos miúdos!
      As aventuras não se esgotam: o pai do Diogo, vestido com um fato impermeável, daqueles dos pescadores de verdade, consegue uma truta para delírio dos cachopos! 
     Há ainda escapadelas para chuveiradas à socapa na rega por aspersão, que é feita por um dispositivo vertical bastante elevado, mesmo acima das cabeças dos catraios. Mais Risota!
     Difícil arrancá-los do paraíso! Os adultos ainda tiveram que esperar que a equipa resgatasse um passarinho caído do ninho e o devolvesse, são e salvo, ao lar. Brilhos nos olhos pequenos com íris dilatadas de emoção!
    
    






     
     

Friday, June 3, 2016

Problemas Conjugais

     
        Quase aposto que vocês estão a pensar que me vou queixar de tampas de sanita que não se levantam ou de rolos de papel higiénico que não se substituem de forma automática, deixando-nos, literalmente, de calças na mão! Podia, mas isso é um assunto de...
      O que realmente me assola passa-se na cozinha. Chorai, amigas, mas são públicos os dotes culinários do meu esponjo - portanto não posso fazer eco das vossas lutas pela equidade tarefal. Pelo contrário, quando calha de me meter eu na cozinha, fazendo grande alarido de tachos, testos e panelas, queimando um estrugido (transmontanos vão checar esta ao dicionário braguês) ou deixando transbordar uma água de cozer batatas, o maridão vem logo em defesa da tranquilidade doméstica, dizendo "Saí lá daqui que este não é o teu habitat natural!"
      Portanto, não sendo gastronómicos os conflitos, também se prendem com o que na minha terra se chama de "o comer". Confesso, então, que a grande mácula marital cá em casa são "os panos". Esse é que é o grande e incontornável problema da nossa harmonia familiar. 
      Qual é que é a dificuldade? O próprio nome indica a sua função, certo? Ora sigam-me: pano da Loiça... limpar pratos; pano das mãos? Isso, muito bem! Limpar MÃOS! Continuamos? Pano dos vidros... não se deduz que seja para limpar móveis de madeira com ceras gordurosas de modo a conspurcar o seu branco imaculado, pois não? 
      Se calhar estou a ser picuinhas, mas a verdade é que a própria textura dos tecidos ajuda a gente a distinguir... é caso para dizer que até um cego conseguia, pelo toque, discernir a flanela de um pano do pó do turco para limpar as mãos! Não?
      A verdade é que, por causa destas nossas desavenças panísticas, já dou por mim a esconder panos novinhos, só para mim, para usar em perfeitas condições, nos devidos lugares, com os detergentes apropriados, na medida certa. Reconheço, porém, que os escondo tão bem que, depois, já os não  encontro ou me esqueço totalmente de que alguma vez existiram...
      Por outro lado, também encontro amiúde panos amarfanhados e besuntados escondidos em lugares recônditos da minha dispensa ou da marquise (marquise é uma palavra que me repugna, mas não me ocorre outra para designar o galinheiro da roupa). Panos amarfanhados, dizia eu, panos de limpeza conspurcados. Mais uma vez, e desculpem a insistência, se a sua função é LIMPAR, não deveriam estar LIMPOS?

Wednesday, May 25, 2016

Contestatários, e ainda bem!

     Contestatário Grande
      "Hoje fui o herói da turma, mãe!"
      "Porquê filho?"
       "Sabes, a professora queria marcar trabalhos de casa e nós explicámos que, apesar de ser feriado, era a nossa primeira comunhão e que era dia de festa e que não tínhamos tempo e que hoje eram ensaios na catedral, mas ela, mesmo assim insistia porque vamos ter testes para a semana e isso...toda a gente lhe estava a pedir que abrisse uma excepção e só desta vez, mas nada... então eu disse-lhe: professora, faça como entender, se quiser marcar, marque, mas eu NÃO os faço! Depois começaram todos a bater palmas e a apoiar-me...."
      "E o que decidiu a professora, filho?"
      "Disse que, então, os que tinham comunhão amanhã, faziam o TPC só no fim de semana, os que não tinham comunhão no feriado, faziam na mesma hoje... e eu não achei lá muito bem porque se havia dispensa era para todos"

      Contestatária Pequena
      Temos, na cozinha, um pequeno placard branco com os dias da semana, onde está escrito o nome dos miúdos, para que saibam, em cada dia, quem levanta a mesa, sem termos de estar a ouvir "eu fui ontem", "eu fui duas vezes seguidas", "hoje não, amanhã tu!". 
      A Maria não sabe ainda ler tudo, porém já decifra há muito tempo os nomes de toda a gente cá em casa e reconhece também os dias da semana, por forma que a estratégia funciona! 
      Hoje, no entanto, no fim de jantar, como dissesse MARIA no espaço da quarta-feira, pôs-se em cima da cadeira, sorrateiramente, em silêncio e de sorriso nos lábios e pôs-se a escrevinhar, enquanto nós estávamos distraídos à conversa. Depois, voltou a sentar-se e, com cara de caso, disse:
       "Mãããe, já viste que já encontrei o marcador deste quadro?"
       A meio de uma conversa, despachei-a "Foi? Boa Maria, ainda bem!"
     E ela, porque nós não estávamos a perceber ou a VER, voltou à carga: "E agora já posso ESCREVER com o marcador ali, não é, mãe?"
      Foi aí que eu reparei e deu risota total. Safada! Tinha escrito PEDRO por cima de todas as MARIAS, ganhando com a emenda a total imunidade laboral!

Monday, May 23, 2016

Escola Pública - guerra púnica e (im)púdica

      Eu estou um bocadinho farta deste não assunto sobre a escola pública e desta não discussão sobre o financiamento do Estado aos privados.
      Primeiro, criou-se aqui uma GUERRA PÚNICA em que não ganham romanos, nem cartagineses. Todos perdem. Alvoroçam-se encarregados de educação em manifs instrumentalizadas e gritos de liberdade extemporâneos e desajustados. Argumentos facciosos que ferem o conceito de direito e liberdade. Liberdade de escolha, cada um tem a sua - arcando com os encargos inerentes ao livre arbítrio. Ninguém me impede de escolher um Mercedes, mas não posso exigir que me paguem a manutenção. Mas, adiante, não quero entrar na discussão técnica da coisa. 
      Alvitram os professores que se proclamam prestadores de serviço público, mas nunca em cascos de rolha, onde o estado precisa deles, em Freixo-de-Espada-a-Cinta ou Avintes ou Cinfães do Douro ou Castro Marim ou Almeida ou Sabugal, são prestadores de serviço público nos colégios à porta de casa, onde fazem falta, pois claro os vizinhos também são alunos! Quer dizer que se eu montar um spa de luxo para irrigar as celulites das madames também devo ser financiada, pois claro, está aberto ao público, logo, é serviço público...
    Dizer apenas que: afogueiam-se os pais, assoberbam-se professores e, pior do que tudo, desestabilizam-se alunos em vésperas de avaliações, finais e de exame. Tudo exaltado! Cessem as hostilidades. Não?
      Segundo, a mim parece-me óbvio que as parcerias são IMPÚDICO-PRIVADAS. Pois é falta de vergonha querer exigir que o Estado me financie o meu negócio. Assim é fácil ser empreendedor. Se, ainda por cima, pagar mal aos funcionários, lhes exigir horas extra e os incumbir de funções que não são propriamente as suas, se preferir contratar funcionários acabados de sair da faculdade para melhor os poder explorar, se fizer contratos após contratos sem nunca vincular ninguém e mais uma centena de eteceteras que não vale a pena explorar... ouro sobre azul. O colégio é meu, eu é que sei.
      Terceiro, isto dito parece-me que a discussão está a bater no fundo, a esgotar os limites da razoabilidade.Eu já estudei num colégio privado e em escolas públicas, frequentei a universidade pública, trabalhei em escolas básicas e secundárias, públicas e privadas. Reconheço virtualidades e defeitos em todas. Penso que a decisão é, realmente, pessoal e de cada um. Cada um assume as suas escolhas. E paga-as.
    Quarto, havendo tantas agendas mais importantes a tratar em educação, perdemos tempo com... isto? Discutam os currículos, acertem de uma vez as avaliações externas -pisca-pisca, agora faz exame, agora já não faz, discutam organizações curriculares abusivas, cargas lectivas exacerbadas, métodos de ensino ultrapassados, falta de recursos humanos (dos auxiliares educativos aos psicólogos, já para não pedir terapeutas da fala e técnicos especializados em variadíssimas áreas lacunares); discutam a formação inicial e contínua dos professores; os critérios de avaliação dos alunos; o próprio mobiliário da sala de aula e a concepção das bibliotecas... enfim, podia estar aqui a noite toda.
      Se quiserem MESMO, discutir financiamento... terei de puxar a brasa à minha sardinha e falar de congelamentos, progressão, escalões and so on and so on. Melhor não, né?
     Enfim, bem avisei que estava um bocadinho farta desta treta toda. Eu já não sei se a escola é pública, púnica ou púdica ... Calem-se e deixem-nos trabalhar!

Sunday, May 22, 2016

BIBÓ BRAGA!

      "GUAAAAAALOOOOOO!"
      Juro que li nos lábios de uma adepto bracarense, porque é assim que se pronuncia na minha terra. De qualquer forma, se fosse tripeiro também não o diria muito diferentemente.
Faz-me lembrar uma aluna, certa vez que escreveu "Vai-e-vem" e me perguntou se estava certo. Eu, algo incrédula, qual seria a dúvida- o hífen, o acento - a hesitar, que sim, que estava bem e ela:"é que eu não sabia se se escrevia com este B ou com o outro!"

      Eu gosto de ser minhota, gosto destes falares, da pronúncia, dos dizeres, da alegria e da genuinidade das gentes. Das excursões e dos farnéis. Assentam arraiais, comem, bebem, penduram garrafas vazias nas tendas improvisadas, quais troféus de desporto olímpico ou caça grossa, cantam, falam alto e esbracejam, trazem o coração na boca e a febre que não é só da bola, mas do conBíbio, da tainada, da gargalhada, da sueca ou da soneca no autocarro.
      O adepto do nuarte, além de ser tuga,  é feliz  e desabrido. Diz o que pensa, sem papas na língua, troca os bês pelos bês, abre muito as vogais e chama "begueiro" ao árbito, ou "murcounhe", ou filho de quem já sabemos, mas esse não é regional, é um miminho aplicado universalmente pela nação inteira.  Agora, é preciso ser bracarense para lhe chamar "trengo", "bazaroco", "artolas","azeiteiro","calaceiro" "broeiro"  e é porque em campo não jogam mulheres, porque se não eram "sostras!" ou "totas" ou, se os ânimos estivessem mesmo exaltados "bacazola".

      O adepto minhoto convida sempre um amigo para ir à bola- "anda conós"! Chegado ao estádio, enquanto o jogo não começa, conta qualquer coisa que lhe aconteceu  "aqui há atrasado", olha para o céu cinzento e arrepende-se de não ter trazido "chuço" que ficou nos "forrinhos". Ou arrepende-se de ter vindo só de "camurcina" porque está "briol" ou "briasca".
       Assim que se ouve o apito inicial, põe o filho "às carrachuchas", vai comentando as "bacoradas" , anima os colegas de bancada "esperai-de que habemos de gAnhAr", manda o árbitro abaixo de Braga as vezes que tiver de mandar e vai espirrando caraAgos a cada remate.
      Se perder, claro, o adversário "só ganhou porque teve mijo".
      Hoje, não. O Braga ganhou a taça, aparentemente cinquenta anos depois. Fiquei contente.  Sou bracarense, não costumo deixar a porta aberta, mas vejo "beijo" Braga por um canudo porque moro longe. Talvez por isso  me alegrasse a Bitória. Nada de clubística, afeição regional. Bibó Braga!


(Quem precisar de tradução ou esclarecimentos pode consultar: 
https://sites.google.com/site/falarbragues/home)


Monday, May 16, 2016

Aula de Karaté-judo-whatever-dasse

      Quando eu era pequenita, o meu pai praticava judo. Falava-nos da disciplina, do rigor e do respeito pelo outro. Que não era apenas uma arte marcial, que envolvia muita técnica, muita prática, muito pouco bater e muito dominar o adversário pela sagacidade, o domínio que não meramente físico. Chamava-lhe responsabilidade.
      Não sei se o entendia muito bem, na altura, mas gostava de o ver de Kimono e achava particularmente piada à faixa, que mudava de cor mediante o grau. Quanto à palavra responsabilidade, não lhe dava muito valor. Desconfio que porque ele a usava connosco a toda a hora e em qualquer circunstância... Devo ter tido uma overdose disso, porque o meu pai gastou a palavra connosco. (LOL)
      Anos mais tarde, e como procurasse voltar a encaixar um pouco de actividade física no meu dia-a-dia povoado de fraldas, responsabilidades e bebés, fui a uma aula experimental de judo ou karaté, já não me lembro. Que me desculpem os entendidos pela ignorância atrevida, mas realmente não me recordo que raio de arte marcial seria. Sei que era mesmo ao lado de casa, que uma amiga me desafiou e que, como o horário era mais ou menos compatível com uma fuguinha às responsabilidades parentais, lá alinhei.
      Primeiro, o cómico desfasamento da minha indumentária. Eu de licras coloridas, no meio dos imaculados kimonos aprumados, bem apertados de cintos hierarquizados. Eu de meias com bonequinhos. Eles, descalços. É nessa altura que um gajo percebe que devia ter ido à pedicure, ter tratado o fungo no dedão grande ou, pelo menos, cortado as unhas dos pés, mas adiante.
      Depois um aquecimento potente, a lembrar um certo militarismo sob a égide de um mestre, que gritava ordens lancinantes para o meu corpito fraquelas, mal-dormido e fatigado de pós-partos. 
      A seguir, a aula. A minha amiga desferia golpes vigorosos, ao pontapé num saco de boxe. E eu a pensar que assim que fosse a minha vez acabaria por quebrar a tal unha fúngica. 
     De seguida, os contactos. Supostamente havia que nocautear o adversário, preferencialmente, com um único golpe. Digamos que a minha noção de contacto corporal não incluía golpes, nem superiores, nem inferiores. Definitivamente, não tinha nascido para aquilo. 
      Finalmente, um carregamento de abdominais, que eu tinha deixado adormecidos durante meses. Da última vez que me tinham gritado "força"... parira uma filha!
      Não obstante toda esta obstaculização interna, até me diverti no processo. A única razão pela qual não voltei foi por ter passado a semana seguinte quase sem conseguir locomover-me e, depois, ter perdido motivação e sucumbido às responsabilidades parentais. RESPONSABILIDADES! Arh!
      No final de contas, o que me ficou da dolorosa coça arte-marciana (parecia que estava em Marte!) foi uma lembrança que ainda hoje me faz rir: a fórmula de saudação ao mestre implicava um grito bem do baixo ventre que se assemelhava a um palavrão, não sei bem que raio seria ou o que significava, mas soar, soava  a "dasse!"- o que, pensando bem, era, de facto, o refrão adequado a tal aula!