Sunday, November 23, 2014

NOTA DE RODAPÉ PARA QUEM MERECE ESTAR NO CABEÇALHO

(Post de 07/12/2012)

Cresci numa casa em que o lema era “ não fazes mais do que a tua obrigação!”. Isso era válido para todas as minhas pequenas grandes conquistas: arrumar o meu quarto, tratar do bilhete de identidade sozinha, tirar nível cinco a todas as disciplinas ou ensinar inglês à minha irmã mais nova (já tinha de ser inglês, pois claro). Nada disso me amargura, particularmente, após tantos anos, até porque isso fez de mim uma pessoa independente e autónoma. No entanto, acho que por isso reconheço hoje em dia a
necessidade de valorizar o esforço dos outros e de elogiar o que é extraordinário. E é isso, meus queridos alunos, que me traz aqui hoje.
Sinto que devo publicamente louvar-vos pela paciência, tolerância e maturidade com que tendes vivido este período letivo. Um elogio mais do que merecido para quem, na idade de todas as turbulências interiores e desafios, viveu um dia a dia de desassossego, numa escola em escombros, cheia de poeira e barulho, por vezes sem janelas e sempre com muito frio, mas também com a vossa força, tanta força, para prosseguir, em busca de uma concentração difícil e de resultados gratificantes. Muito bem. Nunca, nenhum de vós se furtou ao trabalho, apesar de tudo e, a mim, isso parece-me extraordinário. Da minha parte, queridos alunos, muito obrigada pelo vosso exemplo de determinação e coragem. Fizeram, sim, muito mais do que a vossa obrigação.
A professora
Marta Pereira

Tuesday, November 11, 2014

Como tu

Vou ao ginásio com um isqueiro no bolso. Sou um poço de incongruências.
Ocorre-me que sou como tu, que me faltas há três anos, como eu te terei faltado milhares de vezes. 

Adoravas pregar partidas, mas querias ser levada a sério. Gostavas de coisas caras, mas qualquer trapinho te ficava bem. Eras da galhofa, da borga, do gozo, mas quando metias mãos ao trabalho eras um furacão. Revejo-me nisso tudo. Nessa força, essa energia vital, essa alegria. "Quando a Luísa está por perto não há tristezas!", diziam-me tantas vezes. Também sou isso. Sabe Deus. Tenho uma vida de cão, e pouco quem me pergunte por ela. Nem sempre é fácil, mas empurro a rir e a fazer rir. Como tu.
      Estendo roupa, toneladas dela, e penso sempre em ti. Sou tu. As miúdas pequeninas, muita roupa para lavar e passar. Com uma diferença - tu tinhas um marido que não fazia nada, não sei como conseguias. Mas sou tu, no mesmo bulício, no "levar tudo à minha frente", embora, às vezes, como dizias, "dou-lhe uma e prometo-lhe duas" ou "amanhã há mais". Levei anos para entender esta frase. Dei por mim a inteirá-la, no outro dia, depois de um longo dia de trabalho na escola, e atender os miúdos,  e cumprir com as tarefas domésticas básicas e essenciais, e preparar o dia seguinte e olhando em volta para tudo o que ficava por fazer... "amanhã há mais!". Cumpro também essa incongruência.

Sou tu. Quem te conhecia e me vê, comove-se, porque a semelhança física lhes perturba a serenidade. Não posso fugir à minha herança genética - tenho as tuas pernas, os teus joelhos, o teu olhar. Sou o teu fenótipo, a que se parece contigo. 

Ultimamente até me tenho convencido que teremos destinos semelhantes. Revejo-me na tua orfandade, a tua real, a minha simbólica, ambas penosas. Ficaste sozinha muito cedo, apaixonaste-te, abraçaste a família do teu marido como se fosse a tua. Dei por mim a imaginar o que sentias com as pessoas que para mim eram avós e tios, mas para ti eram sogros e cunhados. Nunca me falaste disso, sou eu que o imagino agora, do outro lado da vida, com experiência e idade para o supor. Seria sempre pacífico? Estarias sempre plena e completa? Sentirias solidão no meio das festas? Sou tu, mais uma vez, Tu não tinhas a tua mãe. Eu sei o que isso é, agora.

Como tu, acordo com os olhos inchados e os pés gelados.  Detesto pentear-me, como tu, mas num momento fico  para lá do apresentável, outra incongruência que não deslindei. Não é beleza, a gente brilha, acho que é a tal energia. Tua.

Como tu fervo para apertar cordões, encontrar a chave da casa ou o telemóvel na carteira. A mesma impaciência. O nervoso miudinho. Os suores.

Como tu, as fúrias, as intempéries, os impropérios. Num coração grande que se esquece logo e não guarda rancor.

Amo amendoins, laranjas, pão. Como tu, no sofá da sala, a descascá-los, a ver televisão e a contar as histórias da Niassa, a macaca que veio no barco do tio marinheiro. E os meus filhos a vidrar, como eu e a Ana, à tua volta. As laranjas que comeste na minha gravidez. O pão quente que me davas nos finais de tarde escuros escuros, parecia noite, a caminho de casa, pão quente e guarda-chuvas.

Como tu, a "figadeira". A "breca"... serão as maleitas aprendidas ou geneticamente herdadas? 

Trago a tua aliança. Sou tu. Como falo. Como penso. Como educo os meus filhos. Como trato os outros. Como respiro.Não é (só) saudade, nem memória... É consubstancialidade.

Sunday, September 21, 2014

Megaturmas

Começaram a entrar, aos pares, em grupo, uns atrás dos outros. Sempre gostei daqueles primeiros olhares auspiciosos ou desconfiados, aquele primeiro mirar mútuo que tenta adivinhar se vai correr bem o ano letivo todo. A leva tem sido cada vez maior. De ano para ano a entrada na sala de aula tem engordado e agora faz lembrar aquela primeira massa humana compacta na partida para a meia maratona de Lisboa. Só que desta feita não é para correr. É para sentar - e os problemas começam aí. Não há cadeiras suficientes, não há espaço para aqueles corpos desajustados das carteiras. Jovens de secundário, sentados sempre nas mesmas carteiras desde o segundo ciclo. Mesas ergonómicamente desadaptadas para pernas que levantam pesos no ginásio e saltos altos que elevam os joelhos contra os tampos. 
Não há cadeiras, não há espaço, não chega a haver oxigénio para respirarmos todos ao mesmo tempo, lá teremos de negociar isso também. Demora um certo tempo esta logística, o sentá-los, entalados uns nos outros, para gáudio de uns e desconforto de outros, mais reservados, mais cientes do seu espaço íntimo de segurança. Penso: primeiro obstáculo pessoal à aprendizagem. Estar fisicamente desconfortável, sentir a nossa intimidade invadida e arranjar aí zona de concentração, não obstante. Ponho-me no lugar deles e já sinto que partem em desvantagem. 
Depois lembro-me de mim. Do meu papel ali. Como vou ensinar uma língua estrangeira (ou seja o que for) a um grupo assim? Como vou respeitar as orientações programáticas - 30% para a oralidade? Se puser esta gente toda a falar ao mesmo tempo, digamos, a pares, a colega da sala ao lado desespera, ou, por outro lado, terá também uma urbe conversadora e nem dá por nada... E como vou avaliar essa expressão oral, mesmo que ouça individualmente cada um deles durante cinco minutos, passo uma semana nisso, e entretanto tenho os outros cem à deriva... ou (riam-se) autónoma e responsavelmente a trabalhar. E os testes escritos, que fazem (quase) ao colo uns dos outros? Não há versões que me valham! E as composições, a este nível, estamos a falar de textos complexos, argumentativos sobre questões complexas como alimentos geneticamente modificados, robótica ou questões ambientais... vou tirar uma sabática para lhes corrigir as composições!
Depois lembro-me do ensino individualizado, de como era bom saber-lhes os nomes, olhá-los nos olhos, ouvi-los, conhecê-los um pouco para lá da disciplina que ensino, como seres humanos, como pessoas complexas, com expectativas, sonhos, medos, desânimos e recomeços... não vai ser fácil. Sorrio. Dou-lhes as boas vindas e desejo-lhes boa sorte para o ano lectivo. Vamos precisar.

Tuesday, September 16, 2014

Professor Contratado

     Hoje o meu coração está com os colegas contratados. Na ansiedade. Na dúvida. No desespero. A agarrar em malas e arrancar para outra ponta do país. A deixar para trás filhos de fraldas e a enfrentar a distância com a garganta apertada. A perseguir a esperança vã de mais um ano que lhes permita algum dia entrar nos quadros. E os outros. Os que ainda não foram  notificados.  Calcorreando incessantes listas de colocação caóticas, arbitrárias e injustas. A tentar perceber uma lógica insondável e  obscura. Ano após ano. No jogo do gato e do rato. Colegas - vocês a tentarem os quatro anos consecutivos, o sistema a dar a volta para contratar outros, que não estejam em condições de o fazer... será acaso?

Sunday, September 14, 2014

Roupa estendida - a roupa certa

   Pêras que alguém colheu e generosamente trouxe à casa, incorporam um bolo que está no forno e adocica o ambiente. O verão despede-se, neste final de tarde ventoso. A brisa leva memórias de mergulhos, gelados e sol e traz ansiedades pré-lectivas, borboletas nos estômagos pequenos e grandes, melhor geridas nos pinchos dos mais novos  e mais azedas nos humores dos mais velhos. 
   Também cheira a pêssegos, biológicos, dos que têm superfícies irregulares, buracos de bichos e pisaduras aqui e além, mas que enchem a cozinha de aroma e a fruteira de assimetrias não tabeladas. 
   Setembro toma conta da casa, vem de lápis e cadernos a estrear, traz casacos com sandálias, t-shirts e guarda-chuvas. 
   O estendal está cheio. Sempre cheio, queixamo-nos disso; mas, de repente, os olhos param no estendal do vizinho. Tudo negro. A vida faz sentido deste lado da varanda, com um estendal cheio de roupa estendida - das cores certas.

Wednesday, August 20, 2014

Confesso (ou de como tudo na vida é uma questão de perspectiva)


 Confesso que gosto de me sentar na soleira de pedra da casa verde, a ler um livrinho e a apanhar banhos de sol. Confesso que gosto do Parque Urbano da Rabada. De lá ir treinar, no meio do arvoredo, ao som  dos pássaros a chilrear, das águas do rio e do comboio que atravessa, de quando em quando, mais lá ao fundo. Confesso que gosto de fazer a marmita e ir lá lanchar, que gosto da alegria dos meus filhos, com as primas, naquele parque infantil, a estrear. Pontapés na bola, corridas, escorregas e baloiços.
Confesso que gosto que o Pedro goste de ler o jornal desportivo do tio. Com o tio. Que comente as transferências com os homens, que queira ir para o campo com o avô, que suborne a avó para lhe dar bolachas às minhas escondidas e que acorde desejoso de ir para o quintal. Confesso que me enche o coração que a Maria chame as primas pelo muro,  trepe ao sofá da avó para ir buscar biscoitos, que dê de comer às galinhas cem vezes ao dia e que regue as plantas, as paredes, o mano e a si própria, de mangueira, até ao total encharcanço. Confesso que sou feliz aqui, nesta casa, que viu crescer as minhas sobrinhas, a sua mãe antes delas, o meu marido antes dela, a sua mãe e os seus avós antes dele. Nesta casa de soalho de madeira, portadas de madeira, tectos de madeira, chaminé e traves de granito. Confesso que isso me agrada, para lá da fobia às centopeias, do incómodo das melgas ou do trepidar dos camiões na estrada nacional. Confesso que encontrei o meu espaço também aqui. e que se me dissessem, há catorze anos que assim seria, ter-me-ia custado acreditar. A perspectiva era outra.

Monday, August 11, 2014

Doces dias de Agosto

      Mesmo que este Agosto não seja o mais quente de sempre, mesmo que a temperatura da água do mar só me permita ir a banhos no chuveiro, mesmo que o vento nos afaste da esplanada ao fim do dia, as mãos pequeninas constroem castelos na areia e os seus corações grandes andam tórridos de emoções, pulos, mergulhos e aventuras!
      Temos uma figueira no quintal, por cima da churrasqueira onde grelhamos peixe e em frente a uma mesa onde comemos melancia e melão frescos, acompanhados de um gato preto, que pertence à casa e nos faz companhia na hora das refeições. O gato é uma emoção para os miúdos; o chuveiro no exterior, ao vir da praia, pelas duas da tarde, também é uma emoção para os miúdos. Para os adultos as emoções são outras. É chegar à casa, alugada pela internet, a torcer para que ela EXISTA, e que seja a mesma das fotografias e não uma fraude de um qualquer galinheiro com vista para alfarrobeiras podres. E verificar que o único defeito é estar carregada de santinhos e quadros de gosto questionável (não, não temos o menino da lágrima, mas temos os anjinhos papudos da Capela Sistina!). A senhora a mostrar a casa, tudo "full equiped", como dizia no anúncio, e eu, sem a ouvir, a pensar que aquele mega crucifixo à cabeceira da cama do casal havia de ter  pouco sossego com o casal jovem que, desta vez, aqui vai pernoitar!
      O areal é imenso para caminhar e pôr as ideias em dia, rodeados da família que nos faz falta durante o resto do ano, a folhear jornais, livros e revistas que não temos oportunidade de ler, a enfiar os pés na areia e a saborear aqueles grãos, a textura, fininha, fininha, macia e reconfortante. Os miúdos enchem-se de gelados e bolinhas de berlim, felizes com a injecção de açúcar. Eu gosto que estejam felizes, mas não gosto do açúcar. Relevo. Faz parte. São doces dias de Agosto.