Saturday, July 12, 2014

De futebolista a filósofo

Depois de uma tarde inteirinha a jogar futebol, com muita disputa de bola, algumas birras e muita penalidade mediada pelos adultos, depois de um (mais um) jogo do mundial assistido fervorosamente com gritos entusiastas, regresso a casa, no carro, ainda eufórico e de caderneta de cromos da bola em riste,  (eu a ler-lhe a cartilha, que se tinha portado bem, mas que ainda tinha momentos de descontrolo e que controlar-se era muito importante...) o Pedro sai-se com esta: "Mãe, sabes o que é que é mais importante neste mundo?", eu atiro "comer?", "dormir?", "respirar?" e ele sempre "nãããão", tento algo mais profundo "amar?"; "não, mãe, claro que não, tu não sabes? quem é que te criou?" tento ir nessa direcção "os meus pais? pois a família é muito importante..."; "não, mãe, quem te criou primeiro de tudo foi Deus, Deus é o mais importante de tudo!" Fico suspensa... "Foi na catequese que te ensinaram isso, Pedro?"; "Não mãe tirei das minhas ideias, da minha cabeça..."

Friday, July 11, 2014

A minha prenda de anos para a Filipa

Fazes quarenta anos e sabes que isso é bom. Sabes a vantagem que esse olhar te dá sobre a vida, que te preenche os dias e te faz feliz. Já estiveste em Taizé, mas a tua paz interior, hoje em dia, não tem espaço para ocorrer. Já subiste uma montanha e usas essa força para transpor os obstáculos. Já percorreste algum mundo, mas gostas deste que é o teu, já viveste em Bilbau como em casa; viverias em Roma ou Nova York com a mesma paixão. Conheces o mundo e as pessoas, como só aos quarenta anos se pode. Não acreditas em tudo, embora acreditar seja uma das tuas virtudes.Já te desiludiste com a vida, ralhaste com ela, seguiste em frente; encaraste a morte, sentiste a saudade, não lhe perdoaste e, para te vingares, vives a vida com mais força ainda. Já fizeste dietas e sabes que não resultam, que o melhor é comer coisas com nomes estranhos para os teus pais, mas que são saudáveis e te trazem longevidade. Já veneraste fármacos, trocaste-os por homeopáticos ou por viver sem eles, se puderes. Já perdeste amigos, mas sabes bem fazer um novo e preservas muito os que tens. Já estendeste roupa pequenina e roupa grande de um desporto que não praticas e sabes que nesse estendal está tudo o que importa, mesmo que, às vezes, apeteça fugir. Já seduziste, sabes fazê-lo e o poder é tal que só o usas de forma orientada, moderada e selectiva; ao contrário do sentido de humor, da energia positiva e da alegria, que cresceram contigo e vale a pena esbanjar. Já hipercondriacaste tudo, agora já não stressas; sabes que não vale a pena, que a dor faz parte da vida, que o melhor é prevenir, menos quando uns amigos te desafiam para as comezainas e aí perdes a cabeça (e bem, porque também sabes, aos quarenta, que de vez em quando devemos fazer o que não se deve) e atestas com tudo o que as tuas alergias, figadeiras, colites e estomatites não permitem e, pronto, tens uma passagem de ano altamente, mas o primeiro dia do ano é no hospital!Não faz mal, viveste-o! Estás na tua, no teu melhor, curtes a tua arte, o teu cinema, a tua música, os teus projectos. Já tiveste um filho, plantaste uma árvore e, qualquer dia, amiga, escrevemos um livro juntas! Parabéns, amiga!

Thursday, July 10, 2014

Not again! (no seguimento da ouvidite)

"Mãe, sabias que tens de ir à minha escolinha buscar as notas?"
"Não, filha, como é que sabes?" (sem lhe dar muita importância,a pensar lembraste-te da escola e queres ter NOTAS como o Pedro que já é grande)
"Porque a professora ligou ao pai e eu ouvi! É para saberes se passei de ano..." (uhuh)
Eu, incrédula e condescendente, mais para que não me chateasse mais com aquilo do que para cumprir o desígnio lá estaciono em frente à escolinha, saio do carro, finjo que espreito, penso que só lá devem estar as funcionárias em limpezas gerais e vou fazer figuras tristes, volto para o carro com a desculpa na ponta da língua "hoje já deve ter fechado...", mas não vou a tempo de a debitar; a educadora assoma no jardim a acenar-me "Pensei que já não vinha! Liguei-lhe ontem duas vezes... (mudei de telefone, estava em reunião); acabei por falar com o seu marido" (que, por sua vez, se esqueceu de me avisar!)
Caio em mim. ELA tinha RAZÃO, mais uma vez! Ela realmente sabia o que NÓS tínhamos de fazer... Rendo-me às evidências, vou dar-lhe as chaves de casa e deixar de fingir que trato dela!  

Rosas de verão

A Maria e eu de mão  dada, ladeira abaixo, rodeadas de ciprestes e mármores mais ou menos envelhecidas pelo tempo. Descemos com tempo. Está uma manhã luminosa. Atinge-me o silêncio. Distante do bulício das ruas comerciais e das multidões do shopping. Aqui não há barulho, nem neóns,nem faixas berrantes de promoções, nem apitos de caixas registadoras, mas o meu cérebro,de alguma forma, transporta-me, por segundos até lá. Anseia inebriar-se de consumo e fugir deste silêncio. O silêncio, a quietude, a tenaz realidade limpa  desta mão pequenina e quente, passos pequeninos vibrantes sobre um solo de gente morta. Afasto as ideias, olho para o céu. Limpo e azul, muita luz, algumas asas. Um grupo de gente menos vestida de preto do que mandaria o protocolo e muito menos chorosa do que implicaria a situação, sobe a rua, no sentido inverso ao nosso. Não gosto de luto, nunca cumpri um, pelo menos por fora. Mas ocorre-me que hoje não velamos muito a morte. Não temos tempo, a vida é a correr. É aqui, filha, vira-se por aqui. Ainda deambulamos um pouco entre as campas, tudo demasiado encavalitado, não há corredores, quase se pisa o que não se deve, as memórias de alguém, filhos, pais, mães, maridos, fotos de soldados, datas que marcaram alguém e aquelas pedras para sempre. A nossa. Pelo menos estás com a tua mãe, mãe. Num mesmo pedaço de terra, se é que isso serve de algum consolo. Vamos pôr aqui as rosas do jardim da outra avó, que ainda as rega e cuida. "Cheiram bem", pois é, filha, são frescas cheias de vida; espera aqui um bocadinho que vou pôr água nesta jarra, se não também morrem, (de certa forma já morreram, penso). Ela diz que sim, que espera. E fico assim de longe a encher de água fresca aquela jarra com aquelas rosas vermelhas a Maria sentadinha no jazigo da minha mãe, cheia de sol no cabelo, a cantarolar uma canção imperceptível à distância. Mãos pequeninas a afagar-lhe a foto da lápide de morta, sentada na campa da avó, em vez de no seu colo, a imagem perfeita do paradoxo da existência.

Tuesday, June 24, 2014

Lições de moda!

     Hoje aprendi duas coisas sobre moda: uma com a minha filha, que tem quatro anos, e outra no catálogo do Lidl... se calhar, nenhuma das fontes abona muito a meu favor, no que diz respeito a estar actualizada em relação às últimas tendências, mas adiante.
     Pelos vistos, existe algo chamado jeggings, umas calças muito justas, a meio caminho entre os jeans e os leggings. Esta informação não me vai servir de muito, nas medidinhas top model que estou era capaz de ser um espectáculo muito digno de se ver, mas adiante outra vez.
     Já o entendimento da Mary, precioso, como sempre. Para ela é perfeitamente aceitável vestir uma saia azul com flores em tom de roxo, conjugar com uma T-shirt de riscas azuis e brancas e estampada com a cara da Minnie, finalizando o look com umas sandálias de um outro florido rosa-choque. no cabelo, ganchos multipadronados, tipo árvore de natal. Cheguei a casa e estava assim e serviu-lhe bem. Brincou todo o dia, feliz com os seus estampados, a rodar a saia (lembram-se como era bom rodar a saia?) para se avistarem as cuecas, por sua vez, às bolinhas e mais Minnie. A informação é, atenção meninas, por um lado, é possível ser-se feliz mal vestida e por outro, não é preciso que os outros gostem para que nos sintamos bem...

Monday, June 23, 2014

Exame Nacional de Matemática

Costumo dizer, a brincar, que desisti da matemática assim que começou a misturar letras e números. Tive o primeiro choque no sétimo ano, no final do 1º período - nível três, na pauta. É curioso que não me recordo das notas ou dos próprios testes, só mesmo do impacto que foi, lá em casa, tirar quatro níveis três no natal, eu que, até então, sempre tinha tido cinco a tudo. Ia-me azedando as rabanadas. Ninguém quis saber se tinha sido a transição de uma escolinha básica, o André Soares, para um grande liceu, o D. Maria II, se estava numa idade difícil, se a matéria era difícil, se os professores eram exigentes, que estudasse e pronto. Foi o que fiz, muito. Tanto é que, no segundo período subi todos esses níveis para nível cinco, directo. Agora, como professora, acho que isso foi extraordinário. Na altura, não fiz mais do que a minha obrigação. A matemática deu-me água pela barba, recordo-me. Tinha um livro de exercícios resolvidos, que tinha sido do meu primo, mas não era por isso que estava resolvido, era usado, de facto, mas resolvido por conceito, era assim, mostrava-nos como fazer, passo a passo, para resolver lá os problemas e as equações até chegar à solução. Isto tudo na era pré-google, na era em que a escola pública não era obrigada a oferecer apoios e em que o dinheiro não sobrava para explicações. Tardes inteiras e muitas lágrimas. Sozinha, no meu labor. A frustração, a persistência, a teimosia. Lembro-me de ser um processo árduo. Os primeiros exercícios e, às vezes, muitos de seguida, nunca davam certo, era triste, mas como? como? vamos lá fazer outra vez. Lembro-me da alegria, os primeiros resultados a bater certo, ou quase, e vamos lá tentar outro, acho que já estou a perceber, vamos lá tentar mais outro. E depois o prazer da mestria, quando já todos pareciam fáceis, afinal era fácil, não tinha nada que saber! Enfim, tudo isto me ocorreu, hoje de manhã, naquela sala em serviço de vigilância, já do lado de cá, eu de pé, eles sentados, eu distante dos números, eles a lutar com eles, alguns na luta, outros no desencanto, fora dali, sonolentos a ressacar o jogo do mundial até de madrugada. Adolescentes e manhãs é um paradoxo, sempre disse.O tédio da tarefa de vigiar, depois de lidas todas as obscenidades nas paredes, observadas todas as rachadelas nas paredes, lidas as instruções de evacuação em caso de incêndio ou sismo, não poder sentar e escrever tudo isto, não poder ler. Inveja da funcionária que lê, no corredor, não está a vigiar, pode ler, aqui nem água se pode beber. Alguns lutam com os compassos, mordem a língua. Aquela já acabou. Acabou num instante, o suficiente para a sua sabedoria ou vontade de a mostrar. Esta aqui nem sequer começou. Vai entregar em branco. Preencheu o cabeçalho, deitou a cabeça na mesa e dormiu. Ainda lhe toquei, já vou professora. Deixá-la dormir, pelo menos não incomoda. Admira-me que não haja mais tumultos em exames. Eles que vêm contra-vontade, é obrigatório; eles que têm de estar calados durante duas horas, eu diria que muitos não são capazes de manter silêncio, nunca o fizeram o ano todo, em nenhuma aula e depois ali, por milagre, respeitam. Afinal conseguem.Oxalá não ressone; se entra um inspector dizemos-lhe que está a raciocinar, a med(e)itar ou algo assim. Hordas de Vanessas por esse país fora chegam às salas de exame, maquilhadas, a cheirar a tabaco, leggings de padrões e t-shirts a revelar a barriga,unhas pintadas ou de gel, extensões, monos e madeixas no cabelo, artilhadas, mas não para a matemática. Não as estou a ver naquela minha labuta, naquele esforço. Se calhar a culpa é nossa, os colegas também não as sabem motivar, ou são sinais dos tempos, ou é a escola de massas, ou estou a exagerar. Eles também me parecem fora do contexto. Vêm de chinelos de dedo, havaianas, calções floridos, camisolas de alças. Nós a avisar que no primeiro caderno podem usar calculadora, esqueceram-se dela, um nem caneta tem. A escola empresta, só tens de escrever, desligar o modo mundial e raciocinar, ainda não estás de férias, precisas deste exame para passar. Ou não. Se reprovares abrimos um curso vocacional, financiado, damos-te aulas de apoio pedagógico e encaminhamos-te para a psicóloga da escola para te recuperar. Dorme, Vanessa, para o ano tratamos disso.

ouvidite

Ali, no consultório, sentada do lado de cá da mesa, a médica a examinar a Maria e ela a comunicar com precisão cirúrgica os sintomas, a deixar-se examinar, a comunicar com a médica, e eu, do lado de cá da secretária, sonolenta, meia ausente, demasiado calada para a minha aceleração costumeira, letárgica, meia ausente - tinha chegado a casa farta de escola e calor, o corpo a acusar o ano letivo e os quilómetros, exausta e a Mary a gritar, outra vez, de dor de ouvido e levem-me ao médico já em berros e lágrimas de súplica - e agora,tranquila, sossegada, a comunicar, sem mim, sem precisar de mim para esclarecer e ocorreu-me, num momento de clarividência, que ali estava ela, autónoma, sem mim, fui só o transporte, o motorista, o adulto facultador, há dias que ela nos dizia levem-me ao médico, se tivesse tido carta ia lá ela, sem chatear ninguém, resolvia tudo, tomava a iniciativa, sempre tomou; um dia, do alto dos seus dois anos chegou a casa e comunicou-me que ia deixar a fralda, isso mesmo, comunicou-me, informou-me, para mim ainda não tinha chegado o momento, não estava preparada, não era verão, não me apetecia lavar lençóis, nem calças sujas, mas para ela sim, tinha decidido, era a hora, o tempo dela, a minha Maria e foi-a de facto, que nunca mais foi preciso nada, ela sabia-o, sempre à frente da sua idade, sábia das suas decisões e muito à frente das minhas... enterneceu-me, aquela menina, pensei, tens de começar a ouvir mais os teus filhos, they know better, eles têm as respostas, a tua Maria pode ajudar-te, ouve-a mais, ouve-a melhor, ouve-a sempre. Entretanto a receita, a médica finalmente dirigiu-se ao adulto em presença, não sei porquê, podia ter dado a dosagem à Mary, está visto que é mais focada do que eu e eu tenho aquele problema com os números... enfim, à noitinha, depois do antibiótico pedi-lhe desculpa. Desculpa, filha, bem tinhas razão, era mesmo necessário ir à médica. Eu disse-te, mãe, tu é que não sabias que eu tinha uma ouvidite! (mas tu sabias, filha, tu sabias...)